Quando um casal decide buscar terapia, raramente sabe exatamente o que esperar. A imagem mais comum — um profissional que ouve os dois lados e aponta quem está errado — está longe do que de fato acontece em um processo psicoterapêutico bem conduzido. E está ainda mais longe do que acontece quando esse processo é guiado pela Abordagem Centrada na Pessoa (ACP).
Este artigo é uma tentativa de explicar, com honestidade e base teórica, como esse trabalho funciona, por que ele é diferente e o que um casal pode esperar ao entrar nesse processo.
O ponto de partida: a relação como foco
A primeira coisa que diferencia a terapia de casal na ACP de outras abordagens é o objeto central do trabalho. Na psicoterapia individual, o foco recai sobre a experiência de uma pessoa. No trabalho com casais, esse foco precisa se deslocar.
Como descreve Buys (2015), na terapia de casal “a compreensão do psicoterapeuta não é a da experiência vivida por uma pessoa, mas a compreensão de uma relação, a qual com muita frequência é vivida diferentemente por cada membro do casal”. Isso significa que o terapeuta não pode simplesmente aplicar os mesmos princípios da terapia individual a dois — seria um equívoco técnico e ético.
O casal, nesse sentido, é tratado como uma unidade. Não como a soma de dois indivíduos, mas como uma entidade própria, com sua história, seus padrões, seus silêncios e suas possibilidades. Buys (2015) utiliza o conceito kantiano de síntese para descrever esse movimento: “colocar umas sobre as outras as expressões dos componentes do casal e constatar o que há de comum entre eles” — ou seja, compreender a expressão do casal enquanto casal.
O que a terapia de casal na ACP oferece?
A Abordagem Centrada na Pessoa foi desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Carl Rogers a partir de décadas de prática clínica e pesquisa. Seu ponto central é a crença de que todo ser humano possui uma tendência inerente ao crescimento e à atualização — o que Rogers chamou de tendência atualizante.
Conforme descrevem Telles, Boris e Moreira (2014), Rogers definia essa tendência como “uma tendência inerente, presente em todos os seres humanos, a desenvolver-se em uma direção positiva”. Ela não é uma garantia de que o crescimento acontecerá sempre de forma linear — os próprios psicoterapeutas entrevistados pelos autores reconhecem que o processo “não acontece sempre” e que apresenta dificuldades reais. Mas ela aponta para uma possibilidade fundamental: a de que, em condições adequadas, as pessoas — e os casais — têm dentro de si os recursos para encontrar seus próprios caminhos.
Esse é o pressuposto que orienta todo o trabalho. O terapeuta não chega ao consultório com respostas prontas sobre como o casal deve se relacionar. Chega com a disposição de criar um ambiente onde o casal possa, ele mesmo, descobrir o que precisa.
As condições que tornam o processo possível
Para que a tendência atualizante se manifeste, Rogers identificou condições relacionais específicas que o terapeuta deve oferecer. Em seu artigo seminal de 1957, ele as descreveu como as condições necessárias e suficientes para a mudança terapêutica da personalidade. São elas: o contato psicológico genuíno, a congruência do terapeuta, a consideração positiva incondicional e a compreensão empática (Rogers, 1957, citado por Moreira, 2010).
Na prática com casais, essas condições ganham uma complexidade adicional — e é aqui que muitos equívocos podem acontecer se não forem cuidadosamente considerados.
A empatia, por exemplo, não pode ser dirigida isoladamente a um dos membros do casal. Como alerta Buys (2015), no momento em que o terapeuta “considera positivamente” apenas um dos membros durante um conflito aberto, o outro inevitavelmente se sentirá desconsiderado, gerando aumento de tensão e prejuízo à relação terapêutica. A compreensão empática, no contexto do casal, deve ser sempre sintética — dirigida à relação, não a um dos seus componentes.
A autenticidade do terapeuta — sua congruência, sua presença genuína — também permanece central. Araújo e Freire (2014), ao discutir os valores que sustentam a prática clínica na ACP, destacam que “a longo prazo, a qualidade do encontro era mais importante do que a formação teórica, preparo profissional e técnicas psicológicas” (Rogers, 1967, citado por Araújo & Freire, 2014). O terapeuta não opera por trás de uma máscara profissional, mas como uma presença real na relação.
A consideração positiva incondicional, por sua vez, sustenta todo o trabalho. Ela significa o respeito profundo por cada pessoa, independentemente do que traz, sem julgamentos. No contexto do casal, esse respeito se estende à relação entre eles — ao que os une e ao que os separa, com igual cuidado.
O que não é terapia de casal na ACP
Vale nomear o que este trabalho não é, porque as expectativas equivocadas costumam ser o maior obstáculo para que um casal se beneficie do processo.
A terapia de casal na ACP não é uma arbitragem. O terapeuta não está ali para decidir quem tem razão. Não existem lados certos e errados — existem duas experiências diferentes de uma mesma relação, e ambas merecem ser ouvidas e compreendidas.
Não é psicoterapia individual realizada a dois. Buys (2015) alerta com precisão: “devemos ter muito cuidado para não transformar o trabalho psicoterapêutico com casais em psicoterapia individual a dois, na qual a compreensão permanece individualizada ainda que vivida junto com outro membro do casal”. Quando isso acontece, o processo perde seu caráter terapêutico para o relacionamento e pode se tornar doloroso e incompreensível para um dos dois.
Não é um processo com fim previamente determinado. O ritmo é do casal. Algumas duplas precisam de poucos encontros para reorganizar a comunicação; outras trabalham questões mais profundas ao longo de um tempo mais longo. O que define a duração é o próprio processo, não um protocolo externo.
O propósito central: compreender-se na relação com o outro
Buys (2015) sintetiza com clareza o que orienta esse trabalho: “o propósito de uma psicoterapia de casais na ACP é que cada membro se compreenda na relação com o outro; que a compreensão de cada um seja a partir da compreensão do outro.”
Isso é diferente de simplesmente “melhorar a comunicação” ou “resolver conflitos”. É um convite mais profundo: o de que cada pessoa, ao se ouvir genuinamente e ao ouvir o outro com menos defesas, possa se descobrir de uma forma que talvez nunca tenha sido possível fora dali.
Nas palavras de Buys (2015), a compreensão sintética do casal “os situa dentro de uma relação verdadeira que talvez nunca tenham vivido, profunda, real e intensamente vivida como na sessão terapêutica, na qual constatem que talvez nunca tenham se ouvido e consequentemente se descoberto como neste momento”.
Não é pouca coisa. É, muitas vezes, o começo de uma relação que os dois ainda não conheciam.
Quando buscar?
Não é preciso estar em crise para buscar terapia de casal. Casais que chegam antes do ponto de ruptura têm, em geral, mais recursos e mais espaço para trabalhar. Mas os que chegam depois também encontram aqui um lugar possível — seja para reconstruir, seja para encerrar com clareza e respeito.
O que importa é a disposição de tentar. O restante se constrói no processo.
Referências
ARAÚJO, Iago Cavalcante; FREIRE, José Célio. Os valores e a sua importância para a teoria da clínica da Abordagem Centrada na Pessoa. Revista da Abordagem Gestáltica — Phenomenological Studies, v. XX, n. 1, p. 94-103, jan./jun. 2014.
BUYS, Rogério. A psicoterapia com casais na Abordagem Centrada na Pessoa. RCB, 2015.
MOREIRA, Virginia. Revisitando as fases da Abordagem Centrada na Pessoa. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 27, n. 4, p. 537-544, out./dez. 2010.
TELLES, Thabata Castelo Branco; BORIS, Georges Daniel Janja Bloc; MOREIRA, Virginia. O conceito de tendência atualizante na prática clínica contemporânea de psicoterapeutas humanistas. Revista da Abordagem Gestáltica — Phenomenological Studies, v. XX, n. 1, p. 13-20, jan./jun. 2014.
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